27.1.09

A VIDA E OS COMBOIOS

A vida é como uma viagem de comboio, uma viagem de comboio num comboio absurdo. Onde não existem nem espelhos, nem relógios.
Um comboio cheio de pessoas, todas diferentes, na cor, na língua, no pensar, no sentir, mas todas capazes de um entendimento que jamais hão-de buscar. Todas portadoras de um passado, de um presente e de um futuro, os quais nem elas próprias sabem se realmente existem.
A viagem de cada um começou um dia, um dia como todos os outros, relembrado com uma alegria macabra por aqueles que nos viram chegar, um dia já tão distante que cada um é incapaz de se relembrar da sua própria chegada.
Durante a viagem rimos e choramos, amamos e somos amados e pensamos, vivemos com todas as possibilidades e limitações que o comboio nos proporciona.
Há dias em que a viagem, por si só, é a mais prazeirosa das actividades; outros, porém, gostaríamos que fossem o dia da nossa chegada, a esse destino que ninguém sabe qual é. A essa estação indefinida em que o comboio pára e chamam o nosso nome.
O dia-a-dia no comboio é vulgar e preenchido, embora a paisagem ou a alegria que partilhamos com os outros sejam por vezes capazes de marcar para sempre um desses vulgares dias. E vamos envelhecendo, sempre sem dar por isso, pensando apenas que os outros estão cada vez mais velhos e resmungões, surdos e pitosgas. São sem dúvida estes os que mais saem do comboio.
Mas pode acontecer a qualquer um, sem que no entanto ele o possa escolher ou saber. Pode sair alguém acabado de entrar, pode sair alguém que ama viajar de comboio, pode sair alguém que esteja farto ou enjoado da viagem, pode sair qualquer um a qualquer hora. No entanto uma coisa é certa, saí sempre o companheiro de cabine de alguém, e esse alguém pode ficar contente com o espaço de que agora dispõe. No entanto, o mais certo é ganhar um vazio que jamais apagará mas que o tempo empurrará para o fundo, como aquela roupa que cada um tem no fundo da sua mala mas nunca usa.
De todos aqueles que já saíram guardamos uma estranha memória, alguma coisa que ganhamos ou perdemos, uma lição de vida apreendida pela convivência, ou pela observação. Geralmente é nestas as alturas de partida que mais pensamos na maior das dúvidas, naquela que possui todos os passageiros: Há um maquinista?, e noutras mais: Se há, quem é o maquinista? É ele a voz que chama e escolhe os passageiros que saem?
Para alguns todas as perguntas têm resposta, tudo é simplesmente definido. Para outros, porém, a dúvida ocupa o enorme espaço livre em cada um. Desses, há ainda os que encontram no controlo um descanso. Como se, e visto que o controlo do comboio lhes escapa por completo, o pequeno controlo das igualmente pequenas coisas da vida preenchesse neles essa vocação para maquinista.
Dou por mim a pensar muitas vezes que a maior beleza da vida está sem dúvida na impossibilidade de repetição. Ao fim de alguns anos no comboio já vi muitas paisagens e vivi muitos momentos, e entristece-me profundamente saber que jamais as verei novamente ou os sentirei de novo, mesmo que o meu comboio volte a passar por lá. A singularidade de cada momento vivido é, sem dúvida, o maior valor da viagem, a par da capacidade de sonhar, que permite a total evasão e a reinvenção constante. A felicidade encontra-se quando tendo consciência da realidade se vive em paz e se encontra nos outros a compreensão, o amor e lealdade que tanto ansiamos.

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